GÊNERO: Fantasia.
A VISITA
Isadora
de Castro
Rhiannon era um
mistério.
Tinha cabelos negros caindo em ondas sobre os seios bem
formados. O vestido feito de folhas mais pétalas de flores, cobrindo a pele de
seda, exalava a fragrância de dama-da-noite. No olhar, carregava a cor do
âmbar, tão insondável quanto as chamas mais brilhantes da fogueira. Aqueles
lindos olhos de ouro confessavam sua existência sobrenatural. Ela o encarou uma
última vez, antes de sumir na escuridão.
Diarmaid
não percebeu de imediato. Estava distraído, admirando o filho recém entregue a
ele. A mãe o chamara de Lugh, parte de um acordo com o próprio Deus de muitas
habilidades. O guerreiro desconfiou da lágrima solitária no rosto na sídh, mas
apenas quando o menino começou a chorar é que a procurou.
— Rhiannon!
Rhiannon, apareça! — Ele gritou para a noite. Sem saber o que fazer, partiu
cavalgando até o forte, atrás da única pessoa sábia o suficiente. Após ouvir a
história, a mãe lhe deferiu uma série de cascudos.
— Eu
avisei! Avisei todo dia e noite para não falar com o povo das colinas! São os
sídhe! Agora veja aí o resultado!
O homem
se defendeu como pode. Logo ele, sempre tão forte, tão valente e determinado, só
faltava chorar com a criança.
—
Eu... eu preciso de ajuda, eu não sei o que fazer, não posso cria-lo!
— E eu
muito menos! Já criei você, seu irmão, além dos outros filhos do mulherengo do
seu pai. — Oonagh ergueu uma sobrancelha para a criança. — E se não for humano?
Pode ser um changeling! Um trocado que só trará dor a todos nós!
— Pelo
céu!
— Talvez
o peguem de volta, se colocá-lo na colina onde a conheceu.
Diarmaid
encarou o pequeno ser. Tinha os olhos castanhos como os dele, era quente e
parecia um pacotinho todo enrolado. Seria mais fácil enfrentar um exército
sozinho, do que abandoná-lo a própria sorte. Não duvidava da paternidade, tanto
é que não foi surpresa alguma quando a druidesa anciã confirmou a humanidade do
bebê. Primeiro, arrumou uma mulher para amamenta-lo. Em seguida, passou a
aceitar apenas as missões dentro da província. Era uma pena recusar tantas
aventuras, mas seria um pai presente.
Todas
as candidatas para o cargo de madrasta de Lugh foram rejeitadas. O coração
ainda se contraía ao lembrar de Rhiannon, nunca entendeu porque ela partiu. A
mãe dizia que fadas eram traiçoeiras, sendo o desprezo pelos humanos parte de
sua natureza. Outros, que elas pertenciam a Outro Mundo, sendo Diarmaid
diferenciado por conquistar uma.
De
qualquer forma, a única coisa capaz de aliviar a saudade era o crescimento do
filho. Aos oito meses, o garoto já caminhava sem nenhuma ajuda. No primeiro ano
de vida, já falava. Aos dois anos, surpreendia todos ao cantar versos
perfeitamente. Mesmo assim, a coisa mais admirável surgiu no terceiro ano de
vida.
— Olha
o que sei fazer!
Todos se
viraram para o menino. Esperavam uma cambalhota ou nova música, mas ao invés
disso, viram fogo. Chamas brilharam nas pequenas mãos e depois se apagaram,
conforme ele bateu palmas. Ao término da demonstração, colocou os dedos na
frente da face com um sorriso. O pai foi o único com coragem o suficiente para
se aproximar.
— Como
fez isso?
— A
mamãe me ensinou.
— Você
quer dizer a Grande Avó, a druidesa...
— Não,
papai! A minha mãe, Rhiannon. Brinquei com ela na noite de Beltane. Agora ela
só volta no final do verão, nas fogueiras de ossos.
Como
toda criança, Lugh falava sozinho e quando alguém perguntava, dizia que
conversava com as fadas. Mas receber um dom assim, era algo único. Diarmaid estremeceu
ao imaginar a fada o sequestrando, então passou a dormir com o garoto todas as
noites.
Enfim,
chegou o Samhain, marcando o início das estações frias. Uma noite em que as
fronteiras entre os mundos se suspendiam e seres mágicos perambulavam. A
orientação era para todos ficarem em casa, mas no meio da noite, o guerreiro
não encontrou o filho na cama.
Saiu
acompanhado dos cães. Dava passos largos, gritando pelo menino enquanto rezava
a todos os Deuses para não o levarem. Não viveria sem o filho, como um homem
não vive com o coração fora do peito. Avistou uma pequena luz no meio das
árvores. Correu para ela, encontrando Lugh correndo com uma máscara de folhas.
O apanhou imediatamente.
— O
que está fazendo aqui? Eu disse pra ficar em casa! — Esbravejou.
— A
mamãe me chamou.
— Não
pode ir com ela! Seu lugar é aqui comigo, ela nos abandonou.
— Não
é verdade! — Ele ergueu a voz — Ela ama nós dois, mas não pode ficar porque
morreria longe da terra dela!
Os
lábios do garoto se curvaram, fazendo o pai se arrepender de levantar a voz.
Ele pediu desculpas ao esmagá-lo contra si.
— Me
perdoe, fiquei assustado quando não te vi.
— Mas
o senhor é um guerreiro fian! Os fianna não tem medo de nada.
— Este
aqui tem. — Ele sorriu — Eu tenho medo de perder você, como perdi sua mãe.
— Isso
não vai acontecer, ela só vem visitar. — O menino sorriu ao apontar o dedo,
fazendo Diarmaid se virar e ver a amada.
Rhiannon era um mistério. Tinha cabelos negros caindo em ondas sobre os seios bem formados. O vestido feito de folhas mais pétalas de flores, cobrindo a pele de seda, exalava a fragrância de dama-da-noite. No olhar, carregava a cor do âmbar, tão insondável quanto as chamas mais brilhantes da fogueira. Aqueles lindos olhos de ouro confessavam sua existência sobrenatural. Ela o encarou uma última vez, antes de sumir na escuridão.
O conteúdo desse blog é propriedade intelectual de Isadora de Castro, estando protegido pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/98). Nos casos de cópia, alteração, reprodução e/ou compartilhamento de conteúdo sem autorização, o infrator poderá ser processado por danos materiais e morais, além de responder processo criminal por violação do artigo 184 do Código Penal.
.png)
Nenhum comentário:
Postar um comentário