Literatura Fantástica: Revista Pulp Nacional vol. 7

 

A Revista Literatura fantástica é um projeto periódico pulp na qual tive a honra de participar. Editada e organizada por João Gabriel Álamo, ela conta com um edital permanente. O meu conto “A Anciã” foi a minha segunda tentativa e fiquei muito feliz quando fui aprovada.

A história curta faz parte do universo do meu futuro romance, ainda em fase de finalização. Nela você conhecerá Anya, uma garota que é deixada sozinha na casa de uma velha druidesa, a fim de aprender magia. Ela teme a Grande Avó chamada Cailleach (me inspirei na deusa celta de mesmo nome), mas o verdadeiro terror será sua primeira provação.

As ilustrações hipnotizantes foram feitas por Gabriel Lince e estou muito feliz com o resultado. Para comprar a revista, copie e cole o link abaixo: https://a.co/d/i79TBxl

Boa leitura e muito obrigada pelo apoio!

A VISITA

 

A VISITA

GÊNERO: Fantasia.

A VISITA

Isadora de Castro

            Rhiannon era um mistério.

Tinha cabelos negros caindo em ondas sobre os seios bem formados. O vestido feito de folhas mais pétalas de flores, cobrindo a pele de seda, exalava a fragrância de dama-da-noite. No olhar, carregava a cor do âmbar, tão insondável quanto as chamas mais brilhantes da fogueira. Aqueles lindos olhos de ouro confessavam sua existência sobrenatural. Ela o encarou uma última vez, antes de sumir na escuridão.

Diarmaid não percebeu de imediato. Estava distraído, admirando o filho recém entregue a ele. A mãe o chamara de Lugh, parte de um acordo com o próprio Deus de muitas habilidades. O guerreiro desconfiou da lágrima solitária no rosto na sídh, mas apenas quando o menino começou a chorar é que a procurou.

— Rhiannon! Rhiannon, apareça! — Ele gritou para a noite. Sem saber o que fazer, partiu cavalgando até o forte, atrás da única pessoa sábia o suficiente. Após ouvir a história, a mãe lhe deferiu uma série de cascudos.

— Eu avisei! Avisei todo dia e noite para não falar com o povo das colinas! São os sídhe! Agora veja aí o resultado!

O homem se defendeu como pode. Logo ele, sempre tão forte, tão valente e determinado, só faltava chorar com a criança.

— Eu... eu preciso de ajuda, eu não sei o que fazer, não posso cria-lo!

— E eu muito menos! Já criei você, seu irmão, além dos outros filhos do mulherengo do seu pai. — Oonagh ergueu uma sobrancelha para a criança. — E se não for humano? Pode ser um changeling! Um trocado que só trará dor a todos nós!

— Pelo céu!

— Talvez o peguem de volta, se colocá-lo na colina onde a conheceu.

Diarmaid encarou o pequeno ser. Tinha os olhos castanhos como os dele, era quente e parecia um pacotinho todo enrolado. Seria mais fácil enfrentar um exército sozinho, do que abandoná-lo a própria sorte. Não duvidava da paternidade, tanto é que não foi surpresa alguma quando a druidesa anciã confirmou a humanidade do bebê. Primeiro, arrumou uma mulher para amamenta-lo. Em seguida, passou a aceitar apenas as missões dentro da província. Era uma pena recusar tantas aventuras, mas seria um pai presente.

Todas as candidatas para o cargo de madrasta de Lugh foram rejeitadas. O coração ainda se contraía ao lembrar de Rhiannon, nunca entendeu porque ela partiu. A mãe dizia que fadas eram traiçoeiras, sendo o desprezo pelos humanos parte de sua natureza. Outros, que elas pertenciam a Outro Mundo, sendo Diarmaid diferenciado por conquistar uma.

De qualquer forma, a única coisa capaz de aliviar a saudade era o crescimento do filho. Aos oito meses, o garoto já caminhava sem nenhuma ajuda. No primeiro ano de vida, já falava. Aos dois anos, surpreendia todos ao cantar versos perfeitamente. Mesmo assim, a coisa mais admirável surgiu no terceiro ano de vida.

— Olha o que sei fazer!

Todos se viraram para o menino. Esperavam uma cambalhota ou nova música, mas ao invés disso, viram fogo. Chamas brilharam nas pequenas mãos e depois se apagaram, conforme ele bateu palmas. Ao término da demonstração, colocou os dedos na frente da face com um sorriso. O pai foi o único com coragem o suficiente para se aproximar.

— Como fez isso?

— A mamãe me ensinou.

— Você quer dizer a Grande Avó, a druidesa...

— Não, papai! A minha mãe, Rhiannon. Brinquei com ela na noite de Beltane. Agora ela só volta no final do verão, nas fogueiras de ossos.

Como toda criança, Lugh falava sozinho e quando alguém perguntava, dizia que conversava com as fadas. Mas receber um dom assim, era algo único. Diarmaid estremeceu ao imaginar a fada o sequestrando, então passou a dormir com o garoto todas as noites.

Enfim, chegou o Samhain, marcando o início das estações frias. Uma noite em que as fronteiras entre os mundos se suspendiam e seres mágicos perambulavam. A orientação era para todos ficarem em casa, mas no meio da noite, o guerreiro não encontrou o filho na cama.

Saiu acompanhado dos cães. Dava passos largos, gritando pelo menino enquanto rezava a todos os Deuses para não o levarem. Não viveria sem o filho, como um homem não vive com o coração fora do peito. Avistou uma pequena luz no meio das árvores. Correu para ela, encontrando Lugh correndo com uma máscara de folhas. O apanhou imediatamente.

— O que está fazendo aqui? Eu disse pra ficar em casa! — Esbravejou.

— A mamãe me chamou.

— Não pode ir com ela! Seu lugar é aqui comigo, ela nos abandonou.

— Não é verdade! — Ele ergueu a voz — Ela ama nós dois, mas não pode ficar porque morreria longe da terra dela!

Os lábios do garoto se curvaram, fazendo o pai se arrepender de levantar a voz. Ele pediu desculpas ao esmagá-lo contra si.

— Me perdoe, fiquei assustado quando não te vi.

— Mas o senhor é um guerreiro fian! Os fianna não tem medo de nada.

— Este aqui tem. — Ele sorriu — Eu tenho medo de perder você, como perdi sua mãe.

— Isso não vai acontecer, ela só vem visitar. — O menino sorriu ao apontar o dedo, fazendo Diarmaid se virar e ver a amada.

Rhiannon era um mistério. Tinha cabelos negros caindo em ondas sobre os seios bem formados. O vestido feito de folhas mais pétalas de flores, cobrindo a pele de seda, exalava a fragrância de dama-da-noite. No olhar, carregava a cor do âmbar, tão insondável quanto as chamas mais brilhantes da fogueira. Aqueles lindos olhos de ouro confessavam sua existência sobrenatural. Ela o encarou uma última vez, antes de sumir na escuridão.

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Revista Escribas - Edição 2

            Criado por Maria Gabriela Cardoso, em 11 de Abril de 2022, O coletivo escribas é um coletivo de escritores, cujo foco é promover...