GÊNERO: Fantasia
O
SEGREDO
Isadora de Castro
A
criatura mais perigosa para o guerreiro.
Diarmaid
tinha uma queda por morenas, tanto é que já foi seduzido por uma sídh. Mas
aquela humana era diferente. Possuía a pele bronzeada, cabelos negros, além de
olhos verdes como cristais de turmalina. O filho brincava com ela, então aproveitou
para puxar assunto. Descobriu que a mulher era uma gaulesa recém chegada.
Ele se gabou sobre ser um dos fianna, a guarda mais nobre
do rei, com sentidos mais aguçados que os demais. Contou como os pais
derrotaram Laignech Fáelad e a prole de homens-lobo. A jovem ouviu em silêncio,
sem demonstrar interesse algum. Com orgulho ferido, partiu com Lugh nos ombros.
Aquilo foi estranho, pois as damas sempre o agradavam. Mas a verdadeira
surpresa foi dias depois, quando a mesma beldade apareceu no forte, armada até
os dentes.
— Meu nome é Andarta e vim para ser uma ban-fian!
Muitos não a levaram a sério, mas a matriarca deu uma
chance para testá-la. Cavaram um buraco e a enterram até a cintura. A candidata
usaria um galho de aveleira, para se defender de nove lanças. O admirador a
entregou um escudo, com os mais sinceros votos de boa sorte. Ela não disse
nada, mas aceitou.
Mesmo presa, bloqueou cada lançamento usando os
instrumentos que tinha, numa destreza nunca vista. Se levantou sem nenhum
arranhão sequer, arfando, suja de terra e suor. Ao vê-la, Diarmaid ficou
ligeiramente ofegante. Nos últimos anos, se concentrou em criar o filho
sozinho, sem nenhuma abertura pra romance, até aquele momento. Mas, a ordem da
matriarca cortou a imaginação.
— Muito bem, agora lute com meu filho mais velho.
— Não, eu não. — Ele protestou.
— Pensei que descendia do matador de lobos! — A
desafiante ergueu o queixo.
— Sim.
— Então não precisa ter medo. Não vou te morder.
A fala provocou risos entre os outros guerreiros. Como o
bom fian que era, Diarmaid tratava as mulheres com reverência, mas aquilo já
era um desafio e ele não recusava nenhum. Girou a espada numa demonstração de
habilidade. Um combate amistoso não faria mal nenhum ou pelo menos foi o que
pensou.
Ela dançava, usando as lâminas em giros graciosos. Os golpes
possuíam a brutalidade típica da Gália. O guerreiro se defendia tanto que mal
tinha chance de atacar. Não sabia se a gaulesa era realmente boa ou se estava
distraído pela beleza. O corte no braço confirmou a primeira opção. Após
estancar o sangue, avançou. Na guerra, ninguém se importaria se ela era mulher
e ele também não. Com um único soco a fez perder o equilíbrio.
A desarmou no próximo golpe, colocando os pulsos dela
sobre as costas. Arfou sobre o cangote, rindo mais os amigos, até levar um
coice nos testículos. Em seguida, só o Deus Dagda sabe como, um gancho no
queixo. Ela se levantou. Furioso, estendeu as mãos na direção dela, mas a
garota abaixou e deu uma rasteira. Deitado na terra, observou as nuvens do céu
ao som dos gritos de euforia. A derrota chegou, disfarçada por uma jovem com um
pouco mais de um metro e meio.
Não, ele não perderia, não com o filho assistindo. Puxou-a
pelo tornozelo, rolou com ela, até o pescoço ficar preso entre as coxas. Terminava
de virá-la, quando a mãe interviu.
— Já chega! Não é qualquer um que enfrenta esse gigante.
Parabéns e seja bem-vinda.
Além da perda, a indignação também queimou no guerreiro.
Não acreditava no que ouvia, mas os olhos da mãe permaneceram firmes. Bufou ao
sair, deixando Andarta sorrindo com a vitória. Como se não bastasse perder, a
veria todos os dias no forte, admirada e respeitada pelos outros guerreiros.
Todos pareciam satisfeitos, menos ele. A gaulesa escondia
alguma coisa. Não ria como os outros, tampouco fazia amizades ou paixões.
Caminhava soturna, quase triste. Embora o julgassem com orgulho ferido pelo
fracasso, as suspeitas de Diarmaid só aumentavam a cada noite. Passou a segui-la,
mas ela tinha olhos na nuca.
— Todos nós temos segredos, me deixe em paz!
Após
ter uma faca apontada na garganta, optou por desistir. Reconhecia a
superioridade da adversária, até sair à noite para se aliviar. A avistou se
embrenhando sozinha nos matos. Foi atrás sem pensar duas vezes.
O peito ardeu conforme ela retirava as vestes. Tinha um
amante e não era ele. Estava crente disso, quando os olhos de turmalina reluziram
iguais aos de um animal noturno. Andarta ajoelhou-se, jogou as mechas negras
para frente e para trás. Se sacudiu até os pelos estourarem sobre a pele, patas
crescerem com garras arrancando pedaços de terra. O rosto outrora delicado, se
tornou a imagem bestial de uma loba enorme. Ela parecia faminta e o fian era a
presa mais próxima.
Todas as armas ficaram no forte. Se corresse até lá,
levaria a fera para homens e mulheres adormecidos. Moveu-se devagar, até
avistar um longo galho no chão e quebrou-o. Era afiado o suficiente. A fera o
acompanhava, rosnando com os caninos brilhando ao luar. O homem começou a
rodeá-la, imaginando se restaria algo de humano ali.
Cansada da tensão, a loba se precipitou para o ataque.
Arrancou a estaca das mãos do guerreiro como se fosse um graveto. Pela primeira
vez na vida, o fian sentiu pavor. Empurrou a garganta da fera com os braços, na
tentativa de afastar as presas salivantes do rosto, conforme unhas o arranhavam
no peito.
— Pare, Andarta! Pelo céu! Volte, Andarta! — Gritar era
tudo o que conseguia.
Sem aviso, os pelos caíram como a escuridão cede ao raiar
da aurora, revelando a bela mulher de antes, um pouco tonta e totalmente
despida sobre ele.
— Você... você me chamou.
Depois
de recobrar a consciência, ela se vestiu e o encarou com desconfiança. Talvez
pensassem que era questão de tempo até o povo dele a matar, como mataram os
irmãos e o pai há muitos anos. Começou a correr, mas ele a agarrou.
— Espere! Você descende de Fáelad, não é? Veio se vingar?
— Era minha intenção! — Ela ergueu o queixo, então baixou
o rosto. — Mas os fianna são a justiça dessa terra. São homens bons, ao
contrário do meu pai. Me deixe ir ou eu devorarei todos!
— Não... Você não é uma assassina.
— Tente a sorte!
— Já tentei e ainda estou tremendo para provar! — A
soltou e ambos respiraram fundo. Diarmaid penteou os cabelos com os dedos, até
se sentar no chão.
— Minha
avó me dizia uma lenda. Um faoladh, alguém da sua raça, só volta a forma humana
quando é chamado pelo verdadeiro amor.
Estava escuro demais para notar, mas o sangue subiu nas
faces da guerreira. Ela sentou de costas para ele, mirando as estrelas com um
riso de descrença.
— Eu a chamei e você voltou. — Ele se aproximou, com o
rosto quase colado aos cachos de azeviche. — Só a minha voz pra derreter esse coraçãozinho
de gelo...
— Ah, me deixe!
Ela se levantou, encarando a noite confusa, até seguir na
direção dos matos.
— Ei, aonde você vai?
— Não posso voltar.
— Pode sim, não me derrubou na frente de todos à toa! —
Se levantou — No passado, uma loba como você começou este grupo. Aqui é sua
casa.
— Mas você descobriu e...
— Seu segredo está a salvo. Não há o que temer, a menos
que nos dê motivo.
Diarmaid sorriu ao estender a mão para Andarta. Ela o
tocou um pouco trêmula. Então, lágrimas escaparam dos olhos de turmalina.
— E-eu
não consigo confiar!
— Juro
pelo céu, não contarei a ninguém.
Ele se
aproximou com cautela para beijá-la na testa. Então a abraçou, apoiando o
queixo sobre a cabeça da mulher dando vazão ao pranto. Suspiros de alívio a
percorreram, deixando claro como finalmente removia um peso dos ombros.
Momentos depois, voltaram unidos para o forte. Ninguém entendeu o porquê de
ambos se tornarem tão próximos, muito menos os arranhões no peito do fian.
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Torço para que ele não conte mesmo o segredo dela.
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