Revista Escribas - Edição 2

 

        Criado por Maria Gabriela Cardoso, em 11 de Abril de 2022, O coletivo escribas é um coletivo de escritores, cujo foco é promover a literatura e a arte digital. Atualmente é formado por cerca de quarenta integrantes de todos os cantos do Brasil, com um objetivo em comum: o crescimento mútuo e o amor pela literatura.

        Seu conteúdo diverso é disposto na Revista Escribas, um veículo multicultural e totalmente gratuito! Formada por autores residentes em todos os cantos do Brasil e fora dele, ela garante uma extensa gama de linguagens, opiniões e diversidades.

        Um dos meus contos teve a honra de ser selecionado para a segunda edição da Revista Escribas. "A Virada" é um breve acontecimento na vida de uma mulher, Mel, já totalmente sem fé em plena noite de Ano Novo. Se o fato de termos melhores mapas do chão de Marte do que do chão dos oceanos te deixa intrigado, ou se você curte fantasia, eu lhe recomendo esta história.

Você pode acessar gratuitamente a revista escribas por meio deste link, meu conto está na página 94! 

https://heyzine.com/flip-book/cadcf1ea0e.html



Literatura Fantástica: Revista Pulp Nacional vol. 7

 

A Revista Literatura fantástica é um projeto periódico pulp na qual tive a honra de participar. Editada e organizada por João Gabriel Álamo, ela conta com um edital permanente. O meu conto “A Anciã” foi a minha segunda tentativa e fiquei muito feliz quando fui aprovada.

A história curta faz parte do universo do meu futuro romance, ainda em fase de finalização. Nela você conhecerá Anya, uma garota que é deixada sozinha na casa de uma velha druidesa, a fim de aprender magia. Ela teme a Grande Avó chamada Cailleach (me inspirei na deusa celta de mesmo nome), mas o verdadeiro terror será sua primeira provação.

As ilustrações hipnotizantes foram feitas por Gabriel Lince e estou muito feliz com o resultado. Para comprar a revista, copie e cole o link abaixo: https://a.co/d/i79TBxl

Boa leitura e muito obrigada pelo apoio!

A VISITA

 

A VISITA

GÊNERO: Fantasia.

A VISITA

Isadora de Castro

            Rhiannon era um mistério.

Tinha cabelos negros caindo em ondas sobre os seios bem formados. O vestido feito de folhas mais pétalas de flores, cobrindo a pele de seda, exalava a fragrância de dama-da-noite. No olhar, carregava a cor do âmbar, tão insondável quanto as chamas mais brilhantes da fogueira. Aqueles lindos olhos de ouro confessavam sua existência sobrenatural. Ela o encarou uma última vez, antes de sumir na escuridão.

Diarmaid não percebeu de imediato. Estava distraído, admirando o filho recém entregue a ele. A mãe o chamara de Lugh, parte de um acordo com o próprio Deus de muitas habilidades. O guerreiro desconfiou da lágrima solitária no rosto na sídh, mas apenas quando o menino começou a chorar é que a procurou.

— Rhiannon! Rhiannon, apareça! — Ele gritou para a noite. Sem saber o que fazer, partiu cavalgando até o forte, atrás da única pessoa sábia o suficiente. Após ouvir a história, a mãe lhe deferiu uma série de cascudos.

— Eu avisei! Avisei todo dia e noite para não falar com o povo das colinas! São os sídhe! Agora veja aí o resultado!

O homem se defendeu como pode. Logo ele, sempre tão forte, tão valente e determinado, só faltava chorar com a criança.

— Eu... eu preciso de ajuda, eu não sei o que fazer, não posso cria-lo!

— E eu muito menos! Já criei você, seu irmão, além dos outros filhos do mulherengo do seu pai. — Oonagh ergueu uma sobrancelha para a criança. — E se não for humano? Pode ser um changeling! Um trocado que só trará dor a todos nós!

— Pelo céu!

— Talvez o peguem de volta, se colocá-lo na colina onde a conheceu.

Diarmaid encarou o pequeno ser. Tinha os olhos castanhos como os dele, era quente e parecia um pacotinho todo enrolado. Seria mais fácil enfrentar um exército sozinho, do que abandoná-lo a própria sorte. Não duvidava da paternidade, tanto é que não foi surpresa alguma quando a druidesa anciã confirmou a humanidade do bebê. Primeiro, arrumou uma mulher para amamenta-lo. Em seguida, passou a aceitar apenas as missões dentro da província. Era uma pena recusar tantas aventuras, mas seria um pai presente.

Todas as candidatas para o cargo de madrasta de Lugh foram rejeitadas. O coração ainda se contraía ao lembrar de Rhiannon, nunca entendeu porque ela partiu. A mãe dizia que fadas eram traiçoeiras, sendo o desprezo pelos humanos parte de sua natureza. Outros, que elas pertenciam a Outro Mundo, sendo Diarmaid diferenciado por conquistar uma.

De qualquer forma, a única coisa capaz de aliviar a saudade era o crescimento do filho. Aos oito meses, o garoto já caminhava sem nenhuma ajuda. No primeiro ano de vida, já falava. Aos dois anos, surpreendia todos ao cantar versos perfeitamente. Mesmo assim, a coisa mais admirável surgiu no terceiro ano de vida.

— Olha o que sei fazer!

Todos se viraram para o menino. Esperavam uma cambalhota ou nova música, mas ao invés disso, viram fogo. Chamas brilharam nas pequenas mãos e depois se apagaram, conforme ele bateu palmas. Ao término da demonstração, colocou os dedos na frente da face com um sorriso. O pai foi o único com coragem o suficiente para se aproximar.

— Como fez isso?

— A mamãe me ensinou.

— Você quer dizer a Grande Avó, a druidesa...

— Não, papai! A minha mãe, Rhiannon. Brinquei com ela na noite de Beltane. Agora ela só volta no final do verão, nas fogueiras de ossos.

Como toda criança, Lugh falava sozinho e quando alguém perguntava, dizia que conversava com as fadas. Mas receber um dom assim, era algo único. Diarmaid estremeceu ao imaginar a fada o sequestrando, então passou a dormir com o garoto todas as noites.

Enfim, chegou o Samhain, marcando o início das estações frias. Uma noite em que as fronteiras entre os mundos se suspendiam e seres mágicos perambulavam. A orientação era para todos ficarem em casa, mas no meio da noite, o guerreiro não encontrou o filho na cama.

Saiu acompanhado dos cães. Dava passos largos, gritando pelo menino enquanto rezava a todos os Deuses para não o levarem. Não viveria sem o filho, como um homem não vive com o coração fora do peito. Avistou uma pequena luz no meio das árvores. Correu para ela, encontrando Lugh correndo com uma máscara de folhas. O apanhou imediatamente.

— O que está fazendo aqui? Eu disse pra ficar em casa! — Esbravejou.

— A mamãe me chamou.

— Não pode ir com ela! Seu lugar é aqui comigo, ela nos abandonou.

— Não é verdade! — Ele ergueu a voz — Ela ama nós dois, mas não pode ficar porque morreria longe da terra dela!

Os lábios do garoto se curvaram, fazendo o pai se arrepender de levantar a voz. Ele pediu desculpas ao esmagá-lo contra si.

— Me perdoe, fiquei assustado quando não te vi.

— Mas o senhor é um guerreiro fian! Os fianna não tem medo de nada.

— Este aqui tem. — Ele sorriu — Eu tenho medo de perder você, como perdi sua mãe.

— Isso não vai acontecer, ela só vem visitar. — O menino sorriu ao apontar o dedo, fazendo Diarmaid se virar e ver a amada.

Rhiannon era um mistério. Tinha cabelos negros caindo em ondas sobre os seios bem formados. O vestido feito de folhas mais pétalas de flores, cobrindo a pele de seda, exalava a fragrância de dama-da-noite. No olhar, carregava a cor do âmbar, tão insondável quanto as chamas mais brilhantes da fogueira. Aqueles lindos olhos de ouro confessavam sua existência sobrenatural. Ela o encarou uma última vez, antes de sumir na escuridão.

O conteúdo desse blog é propriedade intelectual de Isadora de Castro, estando protegido pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/98). Nos casos de cópia, alteração, reprodução e/ou compartilhamento de conteúdo sem autorização, o infrator poderá ser processado por danos materiais e morais, além de responder processo criminal por violação do artigo 184 do Código Penal.


O SEGREDO


 O SEGREDO

GÊNERO: Fantasia

O SEGREDO

Isadora de Castro

A criatura mais perigosa para o guerreiro.

Diarmaid tinha uma queda por morenas, tanto é que já foi seduzido por uma sídh. Mas aquela humana era diferente. Possuía a pele bronzeada, cabelos negros, além de olhos verdes como cristais de turmalina. O filho brincava com ela, então aproveitou para puxar assunto. Descobriu que a mulher era uma gaulesa recém chegada.

            Ele se gabou sobre ser um dos fianna, a guarda mais nobre do rei, com sentidos mais aguçados que os demais. Contou como os pais derrotaram Laignech Fáelad e a prole de homens-lobo. A jovem ouviu em silêncio, sem demonstrar interesse algum. Com orgulho ferido, partiu com Lugh nos ombros. Aquilo foi estranho, pois as damas sempre o agradavam. Mas a verdadeira surpresa foi dias depois, quando a mesma beldade apareceu no forte, armada até os dentes.

            — Meu nome é Andarta e vim para ser uma ban-fian!

            Muitos não a levaram a sério, mas a matriarca deu uma chance para testá-la. Cavaram um buraco e a enterram até a cintura. A candidata usaria um galho de aveleira, para se defender de nove lanças. O admirador a entregou um escudo, com os mais sinceros votos de boa sorte. Ela não disse nada, mas aceitou.

            Mesmo presa, bloqueou cada lançamento usando os instrumentos que tinha, numa destreza nunca vista. Se levantou sem nenhum arranhão sequer, arfando, suja de terra e suor. Ao vê-la, Diarmaid ficou ligeiramente ofegante. Nos últimos anos, se concentrou em criar o filho sozinho, sem nenhuma abertura pra romance, até aquele momento. Mas, a ordem da matriarca cortou a imaginação.

            — Muito bem, agora lute com meu filho mais velho.

            — Não, eu não. — Ele protestou.

            — Pensei que descendia do matador de lobos! — A desafiante ergueu o queixo.

            — Sim.

            — Então não precisa ter medo. Não vou te morder.

            A fala provocou risos entre os outros guerreiros. Como o bom fian que era, Diarmaid tratava as mulheres com reverência, mas aquilo já era um desafio e ele não recusava nenhum. Girou a espada numa demonstração de habilidade. Um combate amistoso não faria mal nenhum ou pelo menos foi o que pensou.

            Ela dançava, usando as lâminas em giros graciosos. Os golpes possuíam a brutalidade típica da Gália. O guerreiro se defendia tanto que mal tinha chance de atacar. Não sabia se a gaulesa era realmente boa ou se estava distraído pela beleza. O corte no braço confirmou a primeira opção. Após estancar o sangue, avançou. Na guerra, ninguém se importaria se ela era mulher e ele também não. Com um único soco a fez perder o equilíbrio.

            A desarmou no próximo golpe, colocando os pulsos dela sobre as costas. Arfou sobre o cangote, rindo mais os amigos, até levar um coice nos testículos. Em seguida, só o Deus Dagda sabe como, um gancho no queixo. Ela se levantou. Furioso, estendeu as mãos na direção dela, mas a garota abaixou e deu uma rasteira. Deitado na terra, observou as nuvens do céu ao som dos gritos de euforia. A derrota chegou, disfarçada por uma jovem com um pouco mais de um metro e meio.

            Não, ele não perderia, não com o filho assistindo. Puxou-a pelo tornozelo, rolou com ela, até o pescoço ficar preso entre as coxas. Terminava de virá-la, quando a mãe interviu.

            — Já chega! Não é qualquer um que enfrenta esse gigante. Parabéns e seja bem-vinda.

            Além da perda, a indignação também queimou no guerreiro. Não acreditava no que ouvia, mas os olhos da mãe permaneceram firmes. Bufou ao sair, deixando Andarta sorrindo com a vitória. Como se não bastasse perder, a veria todos os dias no forte, admirada e respeitada pelos outros guerreiros.

            Todos pareciam satisfeitos, menos ele. A gaulesa escondia alguma coisa. Não ria como os outros, tampouco fazia amizades ou paixões. Caminhava soturna, quase triste. Embora o julgassem com orgulho ferido pelo fracasso, as suspeitas de Diarmaid só aumentavam a cada noite. Passou a segui-la, mas ela tinha olhos na nuca.

            — Todos nós temos segredos, me deixe em paz!

Após ter uma faca apontada na garganta, optou por desistir. Reconhecia a superioridade da adversária, até sair à noite para se aliviar. A avistou se embrenhando sozinha nos matos. Foi atrás sem pensar duas vezes.

            O peito ardeu conforme ela retirava as vestes. Tinha um amante e não era ele. Estava crente disso, quando os olhos de turmalina reluziram iguais aos de um animal noturno. Andarta ajoelhou-se, jogou as mechas negras para frente e para trás. Se sacudiu até os pelos estourarem sobre a pele, patas crescerem com garras arrancando pedaços de terra. O rosto outrora delicado, se tornou a imagem bestial de uma loba enorme. Ela parecia faminta e o fian era a presa mais próxima.

            Todas as armas ficaram no forte. Se corresse até lá, levaria a fera para homens e mulheres adormecidos. Moveu-se devagar, até avistar um longo galho no chão e quebrou-o. Era afiado o suficiente. A fera o acompanhava, rosnando com os caninos brilhando ao luar. O homem começou a rodeá-la, imaginando se restaria algo de humano ali.

            Cansada da tensão, a loba se precipitou para o ataque. Arrancou a estaca das mãos do guerreiro como se fosse um graveto. Pela primeira vez na vida, o fian sentiu pavor. Empurrou a garganta da fera com os braços, na tentativa de afastar as presas salivantes do rosto, conforme unhas o arranhavam no peito.

            — Pare, Andarta! Pelo céu! Volte, Andarta! — Gritar era tudo o que conseguia.

            Sem aviso, os pelos caíram como a escuridão cede ao raiar da aurora, revelando a bela mulher de antes, um pouco tonta e totalmente despida sobre ele.

            — Você... você me chamou.

Depois de recobrar a consciência, ela se vestiu e o encarou com desconfiança. Talvez pensassem que era questão de tempo até o povo dele a matar, como mataram os irmãos e o pai há muitos anos. Começou a correr, mas ele a agarrou.

            — Espere! Você descende de Fáelad, não é? Veio se vingar?

            — Era minha intenção! — Ela ergueu o queixo, então baixou o rosto. — Mas os fianna são a justiça dessa terra. São homens bons, ao contrário do meu pai. Me deixe ir ou eu devorarei todos!

            — Não... Você não é uma assassina.

            — Tente a sorte!

            — Já tentei e ainda estou tremendo para provar! — A soltou e ambos respiraram fundo. Diarmaid penteou os cabelos com os dedos, até se sentar no chão.

— Minha avó me dizia uma lenda. Um faoladh, alguém da sua raça, só volta a forma humana quando é chamado pelo verdadeiro amor.

            Estava escuro demais para notar, mas o sangue subiu nas faces da guerreira. Ela sentou de costas para ele, mirando as estrelas com um riso de descrença.

            — Eu a chamei e você voltou. — Ele se aproximou, com o rosto quase colado aos cachos de azeviche. — Só a minha voz pra derreter esse coraçãozinho de gelo...

            — Ah, me deixe!

            Ela se levantou, encarando a noite confusa, até seguir na direção dos matos.

            — Ei, aonde você vai?

            — Não posso voltar.

            — Pode sim, não me derrubou na frente de todos à toa! — Se levantou — No passado, uma loba como você começou este grupo. Aqui é sua casa.

            — Mas você descobriu e...

            — Seu segredo está a salvo. Não há o que temer, a menos que nos dê motivo.

            Diarmaid sorriu ao estender a mão para Andarta. Ela o tocou um pouco trêmula. Então, lágrimas escaparam dos olhos de turmalina.

— E-eu não consigo confiar!

— Juro pelo céu, não contarei a ninguém.

Ele se aproximou com cautela para beijá-la na testa. Então a abraçou, apoiando o queixo sobre a cabeça da mulher dando vazão ao pranto. Suspiros de alívio a percorreram, deixando claro como finalmente removia um peso dos ombros. Momentos depois, voltaram unidos para o forte. Ninguém entendeu o porquê de ambos se tornarem tão próximos, muito menos os arranhões no peito do fian.

O conteúdo desse blog é propriedade intelectual de Isadora de Castro, estando protegido pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/98). Nos casos de cópia, alteração, reprodução e/ou compartilhamento de conteúdo sem autorização, o infrator poderá ser processado por danos materiais e morais, além de responder processo criminal por violação do artigo 184 do Código Penal.




DRAUG

 


DRAUG

GÊNERO: Terror, fantasia.

Não recomendado para menores de 16 anos (violência)

DRAUG

Isadora de Castro

Nunca vi mulher mais sublime.

Hilda contornava de preto os olhos da cor do céu. Era duas cabeças mais alta do que eu e carregava um escudo com uma serpente vermelha. O coração disparava na presença dela. Mostrei o colar de visco, me esforçando para não gaguejar.

— Eu... Eu sei que você sabe se cuidar, mas é um morto-vivo. Então, isso a manterá segura.

            Ela ergueu uma sobrancelha para a erva, então se sentou de costas, erguendo as tranças reluzentes de tão loiras. Ao amarrar os caules, raspei a pele da nuca e me afastei. Os anciãos profetizaram que eu perderia o dom de fogo caso tocasse uma mulher.

            — Obrigada, Mãos Quentes. — A escudeira sorriu para as bagas brancas no pescoço.

            — Me chame de Lugh.

            Gargalhadas ecoaram à distância: Halfdan, um rapaz que mal tinha barba, o bom Eriksson, alvo como a irmã e o pior de todos os vikings: meu comprador, Gulbrander. Me aproximei a contragosto. Não via a hora de ser um homem livre para arrebentá-lo, mas precisava de ajuda para vencer a criatura. O guerreiro de cabelos avermelhados fez uma careta para as plantas.

            — Vai bater nele com isso?

            — Não. Vamos golpeá-lo com as estacas de sorveira. As ervas o afastarão...

            — A única coisa para afastar é você das mulheres. Somos homens do Norte e ao contrário de feiticeiros, não temos medo. Arrancarei a cabeça do bicho, então desposarei essa loirinha ou outra. Talvez eu te chame pra tocar, bardo nanico!

            E pensar que estava tudo combinado para eu me tornar um druida, numa ilha bem longe de idiotas troçando dos meus 1,65 de altura perfeitamente adequados. Respirei fundo.

            — Só quero nos manter vivos. Quanto ao casamento, levarei a lira com prazer se lavar esse fedor de carniça.

            — Respeite o seu senhor! — Ele me empurrou e foi a gota d’água. O acertei com um soco certeiro no queixo, de baixo para cima. Depois de cuspir sangue, Gulbrander avançou com a espada. Trocamos golpes, até o irmão da Donzela intervir.

— Já chega! — Eriksson gritou — Guardem a ira pro monstro. Estamos aqui pela tribo.

Resignados, atravessamos a floresta coberta de neve. Eu ia a pé, tentando me conectar com os sídhe da região. Estava longe dos Deuses de Erin, mas a minha mãe era uma fada e sonhei com ela na noite anterior, me avisando alguma coisa. Me ressentia por só vê-la nos sonhos, quando um corvo bateu num tronco, seguido de outro. À frente uma pilha de pássaros cobria os arredores da pedra funerária.

Formei um círculo com galhos mais as aves. O plano era acendê-lo para prender o indigno de Valhalla. O silêncio era total, pois nem o vento soprava. Tínhamos de terminar antes do sol se pôr, então cavamos e logo encontramos as moedas reluzindo.

— Não peguem. Esse ouro é amaldiçoado. — Orientei.

Me olharam com desdém até avistarem um vulto. Ele se moveu depressa, decepando os cavalos. Agarrei firme a lança de sorveira-brava. A guerreira brandiu o escudo e a coisa o partiu num só golpe, espalhando lascas de madeira para todo lado.

Descobri o rosto. O Draug parecia um urso branco, de cabelos tão pálidos quanto a pele. Rugiu diante da escudeira, mas logo se afastou ao ver o visco. Ergui as mãos, lançando chamas com toda a força. Ele se debateu como uma tocha, espalhando o cheiro de carne queimada. Todos nós pegamos as armas e empalamos o monstro até derrubá-lo.

Com a ajuda das penas mais um pouco de ervas, acendi o círculo e entoei cânticos para prendê-lo. Sepultávamos o infeliz novamente, quando Eriksson começou a rir, então gargalhou, jogando a cabeça para trás.

— A cara dele — arfou — Na hora que o fantas...

Um braço o transpassou no peito, oferecendo o coração do guerreiro para nós. Hilda gritou o nome do irmão, os outros homens pegaram as espadas novamente. Os sons pareciam distantes, conforme o tempo parava para mim. Eu só imaginava onde errei para o morto-vivo voltar. Ao levantar os olhos, avistei mamãe de pé sobre um galho, reluzente como só uma sídh é.

— Fuja! Tire-os daqui!

A obedeci imediatamente, rugindo para todos correrem. A tentação de voltar para reencontrá-la me torturou como anzóis na pele, mas resisti aos puxões. Nos escondemos atrás de um arbusto. O ruivo me agarrou pela túnica, cuspindo ameaças.

— Bruxo inútil! Por que ele não morre?

— São as nuvens. Não temos sol! — A escudeira choramingou.

Em silêncio, revirei a mente à procura da resposta quando a voz da fada sussurrou:

— O Ouro.

— Alguém pegou o tesouro! — Fiquei de pé e todos me olharam confusos. — Vocês sabem como a avareza o acompanha! Qual de vocês foi?

Uma discussão começou. Todos trocaram empurrões unidos a ofensas. Não havia tempo para aquilo, então saquei a faca para rasgar as coisas de cada um. Derrubei as maçãs da mulher, fiz um furo no cantil do mais jovem e da bolsa de Gulbrander, moedas jorraram. Estava prestes a xingá-lo, mas o uivo nos atingiu como uma onda, machucando os ouvidos.

A próxima coisa que me lembro foi Halfdan avançando. Gritava como um louco, brandindo o machado. A Donzela do Escudo correu para impedi-lo e ele a desmaiou com um soco no rosto. O homem com cabelos de vinho também não foi páreo. Me esquivava do garoto como podia, até a lâmina me atingir no braço, fazendo o sangue jorrar. O adversário não me deu outra escolha além de erguer a estaca de sorveira. Atravessado de forma fatal, voltou à razão.

— Vo-você. — E a luz deixou os olhos do rapaz.

Removi a lança devagar e a atirei longe. A angústia me torturou por tirar a vida de alguém tão jovem. Rasguei a manga do ombro, acendi a mão e com calor abrasante cauterizei o corte, cerrando os dentes para não gritar entre as lágrimas. O viking restante me encarou.

— O morto-vivo enlouqueceu o menino. Ele foi fraco.

— Não, você pegou o ouro! Condenou a todos nós!

Antes que ele se justificasse, o Draug surgiu atrás do ladrão. As fileiras de dentes eram a única coisa distinguível entre a massa de carne carbonizada. Usando a espada, o homem decepou as pernas da criatura, mesmo assim ele ainda saltava. O guerreiro sacou uma ponta de lança feita com prata, mas uma mordida no ombro o derrubou.

— Socorro, Lugh! Por Odin, me ajude!

Finquei a espada na cabeça do bicho, mesmo assim, ele ainda bebia o sangue. Como se não bastasse, uma fenda se abriu na terra, puxando ambos para as profundezas de alguma região sombria do Outro Mundo. Tentei não pensar nos domínios de Hel, enquanto segurava o pulso do infeliz.

— Ele quer o tesouro, solte a lança!

— Queime-o!

— Não posso, vou ferir você também! Solte a prata, homem!

— Aaaahhh! Me segure, por favor!

Lágrimas escaparam dele. Por mais detestável que fosse, senti compaixão, pois qualquer um congelava de medo vez ou outra. Ainda mais diante daquele horror, rindo num grunhido abafado ao mastigá-lo. O peso dos dois me arrastava, até um machado descer sobre o pescoço de Gulbrander e em seguida, do Draug.

— Por Freyja! — Hilda rugia ao despedaçá-los com tanta fúria que me afastei para não ser o próximo.

A terra engoliu os restos dos dois e se fechou em seguida, como se nunca se abrisse. O único som ouvido foi o da minha própria respiração. Eu já vi um homem lobo, além de testemunhar o poder dos sídhe, mas aquilo era demais. A escudeira colocou a arma sobre o ombro, depois massageou o rosto golpeado.

— Ele te mordeu?

— Não. — Me apoiei nos joelhos. — Por que o matou?

— O pavor é uma desonra e ele já estava condenado! Ainda não aprendeu como é o Norte?

Ela me encarou com raiva, mas o tremor dos lábios confessou a tristeza pelo irmão. Sem cavalos, seguimos apoiados um no outro, até chegar numa cabana de caçador. Pendurei visco na porta por precaução. Acendi o fogo para nos aquecer, tratamos nossas feridas, jantamos a carne salgada em nossas bolsas e me agasalhei embaixo das peles.

Encarei uma chama dançando na palma da mão. Um dom recebido dos parentes maternos e que hoje só serviu para uma cauterização. Segundo a profecia, eu o perderia ao tocar uma mulher. Deixei a labareda crescer, indo do tom amarelo ao azul, até me deixar. Agora eu só carregava a própria vida como legado da minha mãe.

— Você é um homem bom, es Quentes. — Tremendo de frio, a Donzela do Escudo se aconchegou ao lado.

— Sou apenas Lugh, agora. Chega de fogo.

— Ainda parece quente pra mim. — Ela se inclinou, me beijando com suavidade, até me estremecer de prazer e sorrir.

Nenhuma sensação no mundo se igualava à de ter uma guerreira como ela se abrigando nos meus braços. A apertei com mais força contra o peito, em seguida afaguei a cabeça loira com os dedos.

— Eu te amo. — Ela suspirou.

A revelação me pegou de surpresa. Passei alguns momentos pensando no que dizer e quando finalmente soube, ela já adormecera. Cobri nós dois, depois segurei nas mãos calejadas pelo combate. Pela manhã, eu a amaria ainda mais.

O conteúdo desse blog é propriedade intelectual de Isadora de Castro, estando protegido pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/98). Nos casos de cópia, alteração, reprodução e/ou compartilhamento de conteúdo sem autorização, o infrator poderá ser processado por danos materiais e morais, além de responder processo criminal por violação do artigo 184 do Código Penal.


O Desejo

 

Gênero: Fantasia/Humor

O Desejo

Isadora de Castro

Sou filho de uma druidesa.

            Uma dessas mulheres habitantes da floresta, comungadas com os sídhe, as fadas e espíritos do Outro Mundo. Ela tinha cabelos da cor do Sol, caindo sobre os olhos de mel. Nós vivíamos afastados dos outros, salve algumas pessoas pedindo remédios ou amuletos. Mamãe sempre os tratou muito bem, adorava conversar, mas vivia sozinha. Outros druidas a chamavam de louca, inescrupulosa e coisas que prefiro não lembrar.

            Lá pelos meus sete anos, eu explorava a floresta ao redor de nossa casa. Num certo dia avistei filhotes de cisne no lago e pensei que eles tinham duas mães. Mais tarde, bem escondido, avistei um par de lobos cuidando dos filhotes. Do ângulo de onde estava, percebi como eram um macho e uma fêmea. Aquilo me deixou intrigado e quando minha mãe visitou um clã para fazer escambo, perguntei ao meu amigo mais sabido quem era o macho perto da ninhada.

            — Devia ser o pai, ué! Falando nisso, onde está o seu?

            Naquele dia fiz a maior descoberta da minha vida: todos os seres possuíam pais! Os meninos até recebem o nome deles. Meu amigo, por exemplo, se chamava Fionn Mac Cumhall, sendo Cumhall o nome do pai. Mas meu nome era bem diferente. Minha mãe, uma apreciadora de coisas incomuns, deu-me um nome peculiar: Laignech Fáelad. Todos me chamavam pelo segundo nome, que significa lobo. Eu não possuía um “mac” para indicar de quem eu seria filho.

Mais tarde, voltamos para nossa casa de pedras. O lugar era sempre quente, pois éramos amigos dos espíritos do fogo. Naquela noite eu a inqueri no jantar:

— Por que eu não tenho pai?

— Você tem, sim.

— E onde ele está?

Ela deu de ombros, me deixando arrasado. Afastei o prato e fui chorar no meu canto, ao lado do nosso cachorro. Mamãe se aproximou tocando meus joelhos, me pediu desculpas e se pôs a tagarelar.

— Em uma noite de verão, fui dormir numa colina das fadas. Acordei com um enorme lobo de pelagem tão escura quanto a noite. Eu implorei a ele: Oh, por favor, não me devore! Bebi muito hidromel hoje, minha carne está doce demais!

Ela tinha a voz manhosa e gesticulava o tempo todo, não resisti e deixei o riso escapar. Depois de rir também, continuou.

— Nesse momento, o lobo ficou nas duas patas e virou um homem de cabelos pretos como carvão, enorme em todos os sentidos. Me apaixonei por ele no mesmo instante e nos amamos a noite toda sem parar. — Ela fechou os olhos e levou os dedos aos lábios, absorta num momento oposto ao presente.

— E depois? — A chacoalhei para trazê-la de volta.

— Ah, ele foi embora ao amanhecer. Já disse que os sídhe pertencem à Tir na Nóg e não podem ficar aqui muito tempo. Nove lunações depois, você nasceu para fazer companhia à mamãe. Qual o problema? Não está feliz comigo?

— Estou.

— Você queria ter um pai?

Assenti com certa insegurança. A vida era boa, mas eu cobiçava tudo o que os outros meninos tinham. Além disso, um pai poderia me treinar para ser um dos fianna, a tropa de guerreiros mais nobre e valente, defensora do reino.

— Está bem, amanhã arrumo um para você!

Mal dormi de ansiedade, sem saber como minha vida mudaria para sempre.

Ao amanhecer tomamos nosso desjejum, depois nos banhamos no lago. Minha mãe se untou com óleo de amêndoas e tojo, moeu algumas frutinhas para pintar seus lábios de vermelho, a cor do seu vestido. Depois de mirar o espelho, se pôs a andar de um lado para o outro, enchendo a casa com seu perfume.

— Que tipo de pai eu arrumo pra você?

— Um guerreiro! — Eu disse sem hesitação.

— Não, são rudes demais.

Me decepcionei totalmente. Como eu me tornaria um soldado fian? Talvez se eu fosse filho de um homem poderoso, ele os convenceria a me treinar.  

— Um druida, então?

— Não! São mandões e já moramos na floresta.

Aquilo começou a me irritar. Desejava um pai imediatamente, mas ela não colaborava.

— Será que nenhum homem serve pra você? Escolha o rei, então!

Nesse momento ela arregalou os olhos de cristal, em seguida jogou a cabeça para trás e gargalhou como nunca antes.

— De fato, o rei pode nos ajudar! Vamos vê-lo!

Recolhemos nossos principais pertences e fechamos a casa. O sol brilhava nas folhas das árvores, dançando na brisa suave do Sul. Mamãe colocou uma tiara de flores nos cabelos, atraindo borboletas para si. Ela sempre foi deslumbrante como uma deusa e recebia elogios por onde passava. Pegamos carona em uma carroça.

Finalmente chegamos. Havia uma fila para pedir o julgamento do rei em contendas pessoais, mas passamos na frente de todos. Perguntei a ela como fez isso sem ninguém se importar.

— É o perfume do tojo com as amêndoas. É muito bom para fazer as pessoas amarem você, pena que não dura muito.

Entramos no salão do palácio e ficamos diante do regente. Ele não me impressionou, pois era um pouco velho, envolto em muitos tecidos, mas tinha uma espada grande e gostei dela. Depois de uma mesura, minha mãe ergueu os braços. Ela tinha uma voz encantadora, capaz de preencher todo o salão.

— Oh, grande e sábio rei de Osraige! Por favor, me ajude! Sou uma pobre mulher solitária e desejo um marido. Um homem digno como o senhor, para cuidar de mim e do meu filho.

Ele levantou do trono, reluzindo o diadema adornado de pedras preciosas. Começou a rodeá-la com um olhar que não me agradou nem um pouco. Em seguida a tocou nas mãos, trocaram algumas breves palavras e risos, como se fossem amigos há muito tempo. Um momento depois, a guiou pela cintura na direção dos quartos.

— Não, não. Me espere aqui! — Ela me proibiu de segui-los.

Depois de ter a porta fechada na minha cara, voltei ao salão. Me enfureci ao perceber como se o rei arrumasse um pai para mim, eu teria de dividir minha mãe com um homem. Talvez ele dormiria com ela e eu me deitaria com o cachorro!  Enquanto me arrependia da ideia, um menino com vestes coloridas se aproximou, carregando uma bola.

— Vamos brincar?

Eu aceitei e fomos jogar do lado de fora. Me divertia, até o rei aparecer perto de mim. O rosto dele estava muito corado quando me cumprimentou com um afago na cabeça. Minha mãe ajustava os cabelos mais o decote atrás dele e piscou ao me ver. Fomos interrompidos por uma mulher coberta de joias, provavelmente alguém da nobreza.

— O que deu em você? Disseram que largou os julgamentos para ir atrás de uma mulher...

— Danu, esta é Emer — ele respondeu — Ela será minha segunda esposa a partir de hoje e o filho dela, meu filho.

— O quê? — O rosto da rainha se contorceu de incredulidade. Minha mãe a cumprimentou com um sorriso, debruçando o rosto no ombro do rei. Ele replicou com os olhos fixos na nova consorte:

— Se não gostar, está livre para ir.

A rainha começou a chorar muito, com a face enterrada nas mãos. Ela parecia tão miserável que até eu senti pena dela.

— Ah, não! — Minha mãe interveio — Não faça isso, querido. Nós três podemos viver em harmonia!

O rei encarou Emer com os lábios abertos por um momento, assentindo para ela como bêbado assente para mais um copo de bebida, depois consolou a primeira esposa.

— Me perdoe. Por favor fique aqui, podemos todos viver bem juntos.

— Você vai ser meu irmão! — O garoto que brincava comigo estava mais entusiasmado do que eu.

No mesmo dia nos mudamos para o palácio. Não foi uma ideia tão ruim, afinal. Mamãe ficou um pouco distante, aconselhando o novo marido sempre que possível. Não fiquei triste, pois recebi um quarto grande, roupas de lã, boa comida e até mesmo uma aia para cuidar de mim. Dois anos depois eu e meu irmão partimos de lá para iniciar nossos treinamentos. Como filho do rei, eu seria um guerreiro fian, meu maior desejo.

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Revista Escribas - Edição 2

            Criado por Maria Gabriela Cardoso, em 11 de Abril de 2022, O coletivo escribas é um coletivo de escritores, cujo foco é promover...