Uma dessas mulheres habitantes da floresta, comungadas
com os sídhe, as fadas e espíritos do Outro Mundo. Ela tinha cabelos da cor do Sol,
caindo sobre os olhos de mel. Nós vivíamos afastados dos outros, salve algumas
pessoas pedindo remédios ou amuletos. Mamãe sempre os tratou muito bem, adorava
conversar, mas vivia sozinha. Outros druidas a chamavam de louca, inescrupulosa
e coisas que prefiro não lembrar.
Lá pelos meus sete anos, eu explorava a floresta ao redor
de nossa casa. Num certo dia avistei filhotes de cisne no lago e pensei que
eles tinham duas mães. Mais tarde, bem escondido, avistei um par de lobos
cuidando dos filhotes. Do ângulo de onde estava, percebi como eram um macho e
uma fêmea. Aquilo me deixou intrigado e quando minha mãe visitou um clã para
fazer escambo, perguntei ao meu amigo mais sabido quem era o macho perto da
ninhada.
— Devia ser o pai, ué! Falando nisso, onde está o seu?
Naquele
dia fiz a maior descoberta da minha vida: todos os seres possuíam pais! Os
meninos até recebem o nome deles. Meu amigo, por exemplo, se chamava Fionn Mac
Cumhall, sendo Cumhall o nome do pai. Mas meu nome era bem diferente. Minha
mãe, uma apreciadora de coisas incomuns, deu-me um nome peculiar: Laignech
Fáelad. Todos me chamavam pelo segundo nome, que significa lobo. Eu não possuía
um “mac” para indicar de quem eu seria filho.
Mais
tarde, voltamos para nossa casa de pedras. O lugar era sempre quente, pois éramos
amigos dos espíritos do fogo. Naquela noite eu a inqueri no jantar:
— Por
que eu não tenho pai?
— Você
tem, sim.
— E
onde ele está?
Ela
deu de ombros, me deixando arrasado. Afastei o prato e fui chorar no meu canto,
ao lado do nosso cachorro. Mamãe se aproximou tocando meus joelhos, me pediu
desculpas e se pôs a tagarelar.
— Em
uma noite de verão, fui dormir numa colina das fadas. Acordei com um enorme
lobo de pelagem tão escura quanto a noite. Eu implorei a ele: Oh, por favor,
não me devore! Bebi muito hidromel hoje, minha carne está doce demais!
Ela
tinha a voz manhosa e gesticulava o tempo todo, não resisti e deixei o riso
escapar. Depois de rir também, continuou.
—
Nesse momento, o lobo ficou nas duas patas e virou um homem de cabelos pretos
como carvão, enorme em todos os sentidos. Me apaixonei por ele no mesmo
instante e nos amamos a noite toda sem parar. — Ela fechou os olhos e levou os
dedos aos lábios, absorta num momento oposto ao presente.
— E
depois? — A chacoalhei para trazê-la de volta.
— Ah,
ele foi embora ao amanhecer. Já disse que os sídhe pertencem à Tir na Nóg e não
podem ficar aqui muito tempo. Nove lunações depois, você nasceu para fazer
companhia à mamãe. Qual o problema? Não está feliz comigo?
—
Estou.
— Você
queria ter um pai?
Assenti
com certa insegurança. A vida era boa, mas eu cobiçava tudo o que os outros meninos
tinham. Além disso, um pai poderia me treinar para ser um dos fianna, a tropa
de guerreiros mais nobre e valente, defensora do reino.
— Está
bem, amanhã arrumo um para você!
Mal
dormi de ansiedade, sem saber como minha vida mudaria para sempre.
Ao
amanhecer tomamos nosso desjejum, depois nos banhamos no lago. Minha mãe se
untou com óleo de amêndoas e tojo, moeu algumas frutinhas para pintar seus lábios
de vermelho, a cor do seu vestido. Depois de mirar o espelho, se pôs a andar de
um lado para o outro, enchendo a casa com seu perfume.
— Que
tipo de pai eu arrumo pra você?
— Um
guerreiro! — Eu disse sem hesitação.
— Não,
são rudes demais.
Me decepcionei
totalmente. Como eu me tornaria um soldado fian? Talvez se eu fosse filho de um
homem poderoso, ele os convenceria a me treinar.
— Um
druida, então?
— Não!
São mandões e já moramos na floresta.
Aquilo
começou a me irritar. Desejava um pai imediatamente, mas ela não colaborava.
— Será
que nenhum homem serve pra você? Escolha o rei, então!
Nesse
momento ela arregalou os olhos de cristal, em seguida jogou a cabeça para trás
e gargalhou como nunca antes.
— De
fato, o rei pode nos ajudar! Vamos vê-lo!
Recolhemos
nossos principais pertences e fechamos a casa. O sol brilhava nas folhas das
árvores, dançando na brisa suave do Sul. Mamãe colocou uma tiara de flores nos
cabelos, atraindo borboletas para si. Ela sempre foi deslumbrante como uma
deusa e recebia elogios por onde passava. Pegamos carona em uma carroça.
Finalmente
chegamos. Havia uma fila para pedir o julgamento do rei em contendas pessoais,
mas passamos na frente de todos. Perguntei a ela como fez isso sem ninguém se importar.
— É o
perfume do tojo com as amêndoas. É muito bom para fazer as pessoas amarem você,
pena que não dura muito.
Entramos
no salão do palácio e ficamos diante do regente. Ele não me impressionou, pois
era um pouco velho, envolto em muitos tecidos, mas tinha uma espada grande e gostei
dela. Depois de uma mesura, minha mãe ergueu os braços. Ela tinha uma voz encantadora,
capaz de preencher todo o salão.
— Oh,
grande e sábio rei de Osraige! Por favor, me ajude! Sou uma pobre mulher
solitária e desejo um marido. Um homem digno como o senhor, para cuidar de mim
e do meu filho.
Ele
levantou do trono, reluzindo o diadema adornado de pedras preciosas. Começou a
rodeá-la com um olhar que não me agradou nem um pouco. Em seguida a tocou nas
mãos, trocaram algumas breves palavras e risos, como se fossem amigos há muito
tempo. Um momento depois, a guiou pela cintura na direção dos quartos.
— Não,
não. Me espere aqui! — Ela me proibiu de segui-los.
Depois
de ter a porta fechada na minha cara, voltei ao salão. Me enfureci ao perceber
como se o rei arrumasse um pai para mim, eu teria de dividir minha mãe com um
homem. Talvez ele dormiria com ela e eu me deitaria com o cachorro! Enquanto me arrependia da ideia, um menino com
vestes coloridas se aproximou, carregando uma bola.
—
Vamos brincar?
Eu
aceitei e fomos jogar do lado de fora. Me divertia, até o rei aparecer perto de
mim. O rosto dele estava muito corado quando me cumprimentou com um afago na
cabeça. Minha mãe ajustava os cabelos mais o decote atrás dele e piscou ao me
ver. Fomos interrompidos por uma mulher coberta de joias, provavelmente alguém
da nobreza.
— O
que deu em você? Disseram que largou os julgamentos para ir atrás de uma
mulher...
—
Danu, esta é Emer — ele respondeu — Ela será minha segunda esposa a partir de
hoje e o filho dela, meu filho.
— O quê?
— O rosto da rainha se contorceu de incredulidade. Minha mãe a cumprimentou com
um sorriso, debruçando o rosto no ombro do rei. Ele replicou com os olhos fixos
na nova consorte:
— Se
não gostar, está livre para ir.
A rainha
começou a chorar muito, com a face enterrada nas mãos. Ela parecia tão
miserável que até eu senti pena dela.
— Ah,
não! — Minha mãe interveio — Não faça isso, querido. Nós três podemos viver em
harmonia!
O rei
encarou Emer com os lábios abertos por um momento, assentindo para ela como bêbado
assente para mais um copo de bebida, depois consolou a primeira esposa.
— Me
perdoe. Por favor fique aqui, podemos todos viver bem juntos.
— Você
vai ser meu irmão! — O garoto que brincava comigo estava mais entusiasmado do
que eu.
No mesmo dia nos mudamos para o palácio. Não foi uma ideia tão ruim, afinal. Mamãe ficou um pouco distante, aconselhando o novo marido sempre que possível. Não fiquei triste, pois recebi um quarto grande, roupas de lã, boa comida e até mesmo uma aia para cuidar de mim. Dois anos depois eu e meu irmão partimos de lá para iniciar nossos treinamentos. Como filho do rei, eu seria um guerreiro fian, meu maior desejo.
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Mas que mulher ousada. Adorei a forma decidida dele. Sem contar que a Globo tá perdendo uma boa atriz 😆😆
ResponderExcluirCorrigindo: delA
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