DRAUG

 


DRAUG

GÊNERO: Terror, fantasia.

Não recomendado para menores de 16 anos (violência)

DRAUG

Isadora de Castro

Nunca vi mulher mais sublime.

Hilda contornava de preto os olhos da cor do céu. Era duas cabeças mais alta do que eu e carregava um escudo com uma serpente vermelha. O coração disparava na presença dela. Mostrei o colar de visco, me esforçando para não gaguejar.

— Eu... Eu sei que você sabe se cuidar, mas é um morto-vivo. Então, isso a manterá segura.

            Ela ergueu uma sobrancelha para a erva, então se sentou de costas, erguendo as tranças reluzentes de tão loiras. Ao amarrar os caules, raspei a pele da nuca e me afastei. Os anciãos profetizaram que eu perderia o dom de fogo caso tocasse uma mulher.

            — Obrigada, Mãos Quentes. — A escudeira sorriu para as bagas brancas no pescoço.

            — Me chame de Lugh.

            Gargalhadas ecoaram à distância: Halfdan, um rapaz que mal tinha barba, o bom Eriksson, alvo como a irmã e o pior de todos os vikings: meu comprador, Gulbrander. Me aproximei a contragosto. Não via a hora de ser um homem livre para arrebentá-lo, mas precisava de ajuda para vencer a criatura. O guerreiro de cabelos avermelhados fez uma careta para as plantas.

            — Vai bater nele com isso?

            — Não. Vamos golpeá-lo com as estacas de sorveira. As ervas o afastarão...

            — A única coisa para afastar é você das mulheres. Somos homens do Norte e ao contrário de feiticeiros, não temos medo. Arrancarei a cabeça do bicho, então desposarei essa loirinha ou outra. Talvez eu te chame pra tocar, bardo nanico!

            E pensar que estava tudo combinado para eu me tornar um druida, numa ilha bem longe de idiotas troçando dos meus 1,65 de altura perfeitamente adequados. Respirei fundo.

            — Só quero nos manter vivos. Quanto ao casamento, levarei a lira com prazer se lavar esse fedor de carniça.

            — Respeite o seu senhor! — Ele me empurrou e foi a gota d’água. O acertei com um soco certeiro no queixo, de baixo para cima. Depois de cuspir sangue, Gulbrander avançou com a espada. Trocamos golpes, até o irmão da Donzela intervir.

— Já chega! — Eriksson gritou — Guardem a ira pro monstro. Estamos aqui pela tribo.

Resignados, atravessamos a floresta coberta de neve. Eu ia a pé, tentando me conectar com os sídhe da região. Estava longe dos Deuses de Erin, mas a minha mãe era uma fada e sonhei com ela na noite anterior, me avisando alguma coisa. Me ressentia por só vê-la nos sonhos, quando um corvo bateu num tronco, seguido de outro. À frente uma pilha de pássaros cobria os arredores da pedra funerária.

Formei um círculo com galhos mais as aves. O plano era acendê-lo para prender o indigno de Valhalla. O silêncio era total, pois nem o vento soprava. Tínhamos de terminar antes do sol se pôr, então cavamos e logo encontramos as moedas reluzindo.

— Não peguem. Esse ouro é amaldiçoado. — Orientei.

Me olharam com desdém até avistarem um vulto. Ele se moveu depressa, decepando os cavalos. Agarrei firme a lança de sorveira-brava. A guerreira brandiu o escudo e a coisa o partiu num só golpe, espalhando lascas de madeira para todo lado.

Descobri o rosto. O Draug parecia um urso branco, de cabelos tão pálidos quanto a pele. Rugiu diante da escudeira, mas logo se afastou ao ver o visco. Ergui as mãos, lançando chamas com toda a força. Ele se debateu como uma tocha, espalhando o cheiro de carne queimada. Todos nós pegamos as armas e empalamos o monstro até derrubá-lo.

Com a ajuda das penas mais um pouco de ervas, acendi o círculo e entoei cânticos para prendê-lo. Sepultávamos o infeliz novamente, quando Eriksson começou a rir, então gargalhou, jogando a cabeça para trás.

— A cara dele — arfou — Na hora que o fantas...

Um braço o transpassou no peito, oferecendo o coração do guerreiro para nós. Hilda gritou o nome do irmão, os outros homens pegaram as espadas novamente. Os sons pareciam distantes, conforme o tempo parava para mim. Eu só imaginava onde errei para o morto-vivo voltar. Ao levantar os olhos, avistei mamãe de pé sobre um galho, reluzente como só uma sídh é.

— Fuja! Tire-os daqui!

A obedeci imediatamente, rugindo para todos correrem. A tentação de voltar para reencontrá-la me torturou como anzóis na pele, mas resisti aos puxões. Nos escondemos atrás de um arbusto. O ruivo me agarrou pela túnica, cuspindo ameaças.

— Bruxo inútil! Por que ele não morre?

— São as nuvens. Não temos sol! — A escudeira choramingou.

Em silêncio, revirei a mente à procura da resposta quando a voz da fada sussurrou:

— O Ouro.

— Alguém pegou o tesouro! — Fiquei de pé e todos me olharam confusos. — Vocês sabem como a avareza o acompanha! Qual de vocês foi?

Uma discussão começou. Todos trocaram empurrões unidos a ofensas. Não havia tempo para aquilo, então saquei a faca para rasgar as coisas de cada um. Derrubei as maçãs da mulher, fiz um furo no cantil do mais jovem e da bolsa de Gulbrander, moedas jorraram. Estava prestes a xingá-lo, mas o uivo nos atingiu como uma onda, machucando os ouvidos.

A próxima coisa que me lembro foi Halfdan avançando. Gritava como um louco, brandindo o machado. A Donzela do Escudo correu para impedi-lo e ele a desmaiou com um soco no rosto. O homem com cabelos de vinho também não foi páreo. Me esquivava do garoto como podia, até a lâmina me atingir no braço, fazendo o sangue jorrar. O adversário não me deu outra escolha além de erguer a estaca de sorveira. Atravessado de forma fatal, voltou à razão.

— Vo-você. — E a luz deixou os olhos do rapaz.

Removi a lança devagar e a atirei longe. A angústia me torturou por tirar a vida de alguém tão jovem. Rasguei a manga do ombro, acendi a mão e com calor abrasante cauterizei o corte, cerrando os dentes para não gritar entre as lágrimas. O viking restante me encarou.

— O morto-vivo enlouqueceu o menino. Ele foi fraco.

— Não, você pegou o ouro! Condenou a todos nós!

Antes que ele se justificasse, o Draug surgiu atrás do ladrão. As fileiras de dentes eram a única coisa distinguível entre a massa de carne carbonizada. Usando a espada, o homem decepou as pernas da criatura, mesmo assim ele ainda saltava. O guerreiro sacou uma ponta de lança feita com prata, mas uma mordida no ombro o derrubou.

— Socorro, Lugh! Por Odin, me ajude!

Finquei a espada na cabeça do bicho, mesmo assim, ele ainda bebia o sangue. Como se não bastasse, uma fenda se abriu na terra, puxando ambos para as profundezas de alguma região sombria do Outro Mundo. Tentei não pensar nos domínios de Hel, enquanto segurava o pulso do infeliz.

— Ele quer o tesouro, solte a lança!

— Queime-o!

— Não posso, vou ferir você também! Solte a prata, homem!

— Aaaahhh! Me segure, por favor!

Lágrimas escaparam dele. Por mais detestável que fosse, senti compaixão, pois qualquer um congelava de medo vez ou outra. Ainda mais diante daquele horror, rindo num grunhido abafado ao mastigá-lo. O peso dos dois me arrastava, até um machado descer sobre o pescoço de Gulbrander e em seguida, do Draug.

— Por Freyja! — Hilda rugia ao despedaçá-los com tanta fúria que me afastei para não ser o próximo.

A terra engoliu os restos dos dois e se fechou em seguida, como se nunca se abrisse. O único som ouvido foi o da minha própria respiração. Eu já vi um homem lobo, além de testemunhar o poder dos sídhe, mas aquilo era demais. A escudeira colocou a arma sobre o ombro, depois massageou o rosto golpeado.

— Ele te mordeu?

— Não. — Me apoiei nos joelhos. — Por que o matou?

— O pavor é uma desonra e ele já estava condenado! Ainda não aprendeu como é o Norte?

Ela me encarou com raiva, mas o tremor dos lábios confessou a tristeza pelo irmão. Sem cavalos, seguimos apoiados um no outro, até chegar numa cabana de caçador. Pendurei visco na porta por precaução. Acendi o fogo para nos aquecer, tratamos nossas feridas, jantamos a carne salgada em nossas bolsas e me agasalhei embaixo das peles.

Encarei uma chama dançando na palma da mão. Um dom recebido dos parentes maternos e que hoje só serviu para uma cauterização. Segundo a profecia, eu o perderia ao tocar uma mulher. Deixei a labareda crescer, indo do tom amarelo ao azul, até me deixar. Agora eu só carregava a própria vida como legado da minha mãe.

— Você é um homem bom, es Quentes. — Tremendo de frio, a Donzela do Escudo se aconchegou ao lado.

— Sou apenas Lugh, agora. Chega de fogo.

— Ainda parece quente pra mim. — Ela se inclinou, me beijando com suavidade, até me estremecer de prazer e sorrir.

Nenhuma sensação no mundo se igualava à de ter uma guerreira como ela se abrigando nos meus braços. A apertei com mais força contra o peito, em seguida afaguei a cabeça loira com os dedos.

— Eu te amo. — Ela suspirou.

A revelação me pegou de surpresa. Passei alguns momentos pensando no que dizer e quando finalmente soube, ela já adormecera. Cobri nós dois, depois segurei nas mãos calejadas pelo combate. Pela manhã, eu a amaria ainda mais.

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Um comentário:

  1. Olha eu aqui de novo! Gostei do capítulo. Essa história tem tudo pra ser eletrizante.

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Revista Escribas - Edição 2

            Criado por Maria Gabriela Cardoso, em 11 de Abril de 2022, O coletivo escribas é um coletivo de escritores, cujo foco é promover...